A Peste na Europa
A peste responsável pela epidemia
do século XIV surge durante o cerco à colônia de Génova, Caffa, na Crimeia
(Ucrânia), em Outubro de 1347 pelos tatares (um povo mongol ou túrquico)
auxiliados pelos venezianos. A peste matou tantos tatares que foram obrigados a
retirar-se, mas não sem contaminar a cidade. Nesta morreram tantos habitantes
que tiveram de ser queimados em piras, já que não havia mão de obra suficiente
para os enterrar. Constantinopla teria sido infectada na mesma época. Vários
navios genoveses fugiram da peste, indo atracar aos portos de Messina, Génova,
Marselha e Veneza, com os porões cheios dos cadáveres dos marinheiros. A
transmissão teria sido feita pelos ratos pretos de Caffa, que transmitiram as
suas pulgas infectadas aos ratos destas cidades. Assim se explica que apesar de
algumas cidades terem recusado os navios, tenham sido infectadas igualmente, já
que os ratos escapavam pelas cordas da atracagem.
Assim descreve Bocaccio os
sintomas: "Apareciam, no começo, tanto em homens como nas mulheres, ou na
virilha ou nas axilas, algumas inchações. Algumas destas cresciam como maçãs, outras
como um ovo; cresciam umas mais, outras menos; chamava-as o povo de bubões. Em
seguida o aspecto da doença começou a alterar-se; começou a colocar manchas de
cor negra ou lívidas nos enfermos. Tais manchas estavam nos braços, nas coxas e
em outros lugares do corpo. Em algumas pessoas as manchas apareciam grandes e
esparsas; em outras eram pequenas e abundantes. E, do mesmo modo como, a
princípio, o bubão fora e ainda era indício inevitável de morte, também as
manchas passaram a ser mortais".
Uma das maiores dificuldades era
dar sepultura aos mortos:
"Para dar sepultura a grande
quantidade de corpos já não era suficiente a terra sagrada junto às Igrejas;
por isso passaram-se a edificar Igrejas nos cemitérios; punham-se nessas
Igrejas, às centenas, os cadáveres que iam chegando; e eles eram empilhados
como as mercadorias nos navios".
Em Avignon, na França, vivia Guy
de Chauliac, o mais famoso cirurgião dessa época, médico do Papa Clemente VI.
Chauliac sobreviveu à peste e deixou o seguinte relato: "A grande
mortandade teve início em Avignon em janeiro de 1348. A epidemia se apresentou
de duas maneiras. Nos primeiros dois meses manifestava-se com febre e
expectoração sanguinolenta e os doentes morriam em 3 dias; decorrido esse tempo
manifestou-se com febre contínua e inchação nas axilas e nas virilhas e os
doentes morriam em 5 dias. Era tão contagiosa que se propagava rapidamente de
uma pessoa a outra; o pai não ia ver seu filho nem o filho a seu pai; a
caridade desaparecera por completo". E continua: "Não se sabia qual a
causa desta grande mortandade. Em alguns lugares pensava-se que os judeus
haviam envenenado o mundo e por isso os mataram".
No meio de tanto desespero e
irracionalidade, houve alguns episódios edificantes. Muitos médicos se
dispuseram a atender os pestosos com risco da própria vida. Adotavam para isso
roupas e máscaras especiais. Alguns dentre eles evitavam aproximar-se dos
enfermos. Prescreviam à distância e lancetavam os bubões com facas de até 1,80
m de comprimento.
Da Península Itálica, a doença
espalhou-se pelo resto da Europa, atingindo a Grã-Bretanha e Portugal em 1348 e
finalmente a Escandinávia em 1350. Algumas zonas foram inexplicavelmente
poupadas, como Milão e a Polónia.
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Médico da
Idade Média com fato "protector" anti-peste
A Peste em Portugal
Em Portugal, a peste entrou no
Outono de 1348. Matou entre um terço e metade da população, segundo as
estimativas mais credíveis, e entretanto reduziu a nação ao caos. Foram
inclusivamente convocadas as Cortes em 1352 para restaurar a ordem.
Um dos efeitos indirectos da
peste em Portugal seria a revolução após o reinado de D. Fernando (Crise de
1383-1385). Este interregno, mais que uma guerra civil pela escolha de novo
rei, terá antes sido a luta da nova classe de pequena nobreza e burguesia que
subira a escada social aproveitando as oportunidades após os desequilíbrios
sociais provocados pela peste, contra o "antigo regime"
desacreditado, a enfraquecida e esclerótica alta nobreza que presidira à
catástrofe e cujos titulares, nascidos e criados nos anos da doença, não terão
adquirido as capacidades necessárias à governação eficaz. De facto esta elite
da alta nobreza, clero e Casa Real, terá respondido à substancial perda de
rendimentos e aumento de custos de mão de obra devido à peste com maior
autoritarismo e tirania. Assim se explica a tendência desta frágil alta nobreza
de se aliar com a sua também atacada congénere castelhana.
A peste, que nunca antes existira
na Península Ibérica, voltou a Portugal várias vezes até ao fim do século XVII,
ou seja sempre que nasciam suficientes novos hóspedes não imunes. Nenhuma foi
nem remotamente tão devastadora como a primeira, mas a Grande Peste de Lisboa
em 1569 terá matado 600 pessoas por dia, ao todo 60 000 habitantes da cidade
terão sucumbido. A última grande epidemia foi em 1650. No entanto, no
seguimento da Terceira Pandemia (ver à frente), a peste foi importada para o
Porto em 1899 do Oriente (provavelmente de Macau onde grassou desde 1895 até ao
fim do século). A epidemia do Porto foi estudada por Ricardo Jorge, que
instituiu as medidas de Saúde Pública necessárias, e que a conseguiram limitar.
Efeitos culturais e pogroms
Ver artigo principal: Lenda do
envenenamento dos poços
Os efeitos demográficos,
culturais e religiosos foram imensuráveis. A população desceu em mais de um
terço. Os sobreviventes do povo e da pequena nobreza e burguesia provavelmente
enriqueceram, por aumento dos salários devido à diminuição da mão-de-obra e
descida dos preços das terras e das rendas. Os grandes proprietários rurais,
dependentes totalmente do trabalho alheio, sofreram algum declínio econômico.
Daí se explica a proclamação das leis do sumptuário, que proibiram aos vilões
usar roupas caras como os nobres. Não estando as divisões sociais tão claras
como antes a nível de propriedade, insistiu-se mais nos títulos.
As perseguições às minorias
aumentaram drasticamente, e especialmente os pogroms contra os judeus. O facto
de a maioria dos médicos judeus pouco poder fazer, e do fanatismo religioso que
se apossou das populações aterrorizadas, terá contribuído para a acusação e
perseguição a essa minoria. Além disso os judeus tornaram-se suspeitos quando,
devido às suas leis talmúdicas de higiene (cumpridas rigorosamente), as suas
vítimas foram em menor número que as de comunidades cristãs. Houve mais de 150
massacres e dezenas de comunidades judaicas menores foram exterminadas pelos
motins dos cristãos, facilmente incitados pelos priores locais, apesar das
condenações pelos altos clérigos. A perseguição dos judeus na Alemanha levou à
sua emigração em massa para a Polónia e para a Rússia, onde mantiveram a língua
alemã ou o seu dialecto hebraico, o Yiddish.
Os leprosos também foram
perseguidos, culpados como os judeus de disseminar a doença (a lepra
naturalmente não tem nenhuma relação com a peste).
Flagelantes: movimento religioso místico que
surgiu como reacção à PesteVários movimentos religiosos surgiram do terror que
alimentava o misticismo e descredibilizava as formas religiosas mais
tradicionais. Os flagelantes que acreditavam na libertação pela
auto-martirização e pela dor cresceram radicalmente em números, e foram no
Sacro Império Romano-Germânico e outros estados os principais responsáveis pela
perseguição fanática aos judeus.
Recorrências
A doença voltou a cada geração à
Europa até ao início do século XVIII. Cada epidemia matava os indivíduos
susceptíveis, deixando os restantes imunes. Só quando uma nova geração não
imune crescia é que havia novamente suficiente número de pessoas vulneráveis
para a infecção se propagar. No entanto nenhuma destas epidemias foi tão mortal
como a primeira, devido às modificações de comportamento e à eliminação dos
genes (como alguns do MHC- ver sistema imunitário) que davam especial
susceptibilidade aos seus portadores. Epidemias notáveis foram a Peste
Espanhola de 1596-1602, que matou quase um milhão de espanhóis, a Peste
italiana de 1629-1631, a Grande Praga de Londres de 1664-1665 e a Grande Peste
de Viena em 1679.
A peste londrina é especialmente
interessante porque foi a última naquela cidade. O Grande fogo de Londres logo
no ano seguinte, em 1666 queimou completamente as casas de madeira e telhados
de colmo comuns até então, e novos materiais como a pedra, os tijolos e as
telhas foram usados na construção de novas casas, contribuindo para afastar os
ratos das habitações. O mesmo processo, aliado a melhores condições de higiene
e à substituição do rato preto pelo rato cinzento (Rattus norvegicus, que evita
as pessoas), e à resistência genética crescente das populações, contribuíram
para o declínio contínuo das epidemias de peste na Europa.
A peste como arma biológica
A peste foi inicialmente
introduzida em Jaffa na Criméia (região da Ucrânia) como arma biológica. Cadáveres de turcos que tinham
morrido da doença foram catapultados para dentro das muralhas da cidade, de
onde se espalhou dando origem à Peste Negra do século XIV.
Durante a Primeira guerra
mundial, o exército do Japão desenvolveu a peste enquanto arma biológica de
disseminação por pulgas. Foi usada contra civis chineses e prisioneiros de
guerra na Manchúria.
Durante a Guerra fria os EUA e a
URSS desenvolveram estirpes geneticamente modificadas de bacilos Yersinia
pestis para disseminação como aerossol pelo ar. A União Soviética provavelmente
desenvolveu armas eficazes em grande volume, segundo alguns relatórios dos
serviços secretos dos Estados Unidos, mas dados específicos não são conhecidos
e é provável que os arsenais já tenham sido destruídos. Será?
