sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Guerra de Secessão ou Guerra Civil Americana


Depois de alcançar sua independência, os Estados Unidos se depararam com um intenso debate em torno de suas políticas de desenvolvimento econômico. Ao longo de sua história os modelos econômicos das antigas treze colônias eram dotados por diferenças históricas que dividiam a região entre as colônias do norte e do sul. Tal disparidade acarretou em uma intensa disputa na esfera política que acabou levando a jovem nação norte-americana a resolver suas contendas através de uma violenta guerra civil.
Bandeiras americanas durante a guerra
De forma geral, a demanda política dessas duas regiões da economia estadunidense criou um campo de tensões onde o favorecimento de uma significava a ruína da outra. Os estados do norte desenvolveram uma economia voltada para a produção industrial, o incentivo das atividades comerciais, mão-de-obra assalariada e a produção agrícola em pequenas propriedades. Em contra partida os sulistas priorizaram uma economia agroexportadora, fundamentada no latifúndio e na mão-de-obra escrava.

Os nortistas, também conhecidos como yankees, priorizavam a constituição de altas tarifas alfandegárias que impedissem a dominação do mercado interno pelas manufaturas estrangeiras e incentivasse o desenvolvimento da indústria nacional. Já os sulistas almejavam uma política alfandegária com valores baixos que permitisse o acesso dos estados do sul a uma maior quantidade de produtos industrializados. Mediante as negociações, os valores das taxas variavam entre 20 e 30 por cento.

Outra delicada questão girava em torno das políticas agrárias nos Estados Unidos. Os nortistas defendiam um modelo calcado na pequena propriedade e na diversificação produtiva vinculada ao aumento da matéria prima disponível. O sul ambicionava a limitação ao acesso, pois via na pequena propriedade uma ameaça direta ao interesses dos grandes proprietários interessados em ampliar o número de terras destinadas às monoculturas agroexportadoras.

Um último ponto de discórdia tratava da questão do escravismo nos Estados Unidos. Os nortistas eram interessados no fim dessa relação de trabalho. Muitos deles, influenciados pela ideologia iluminista, viam na libertação dos escravos a ampliação do mercado consumidor interno no momento em que os ex-escravos fossem convertidos em trabalhadores assalariados. Nessa questão, o sul se colocava inflexivelmente contra, pois toda força de trabalho dos latifúndios eram sustentadas pelo sistema escravista.

As animosidades criadas pelas diferenças políticas alcançaram seu auge quando os sulistas, reunidos em Montgomery, resolveram implementar um projeto separatista. Dessa reunião ficou acertada a criação dos Estados Confederados da América, formado por nações da região sul. Mesmo estando em menor quantidade, os separatistas esperavam o reconhecimento do novo Estado. No entanto, os yankees prepararam uma grande ofensiva contra os separatistas. Dava-se assim, início à Guerra de Secessão, em 1861.
Soldados confederados mortos na Batalha de Antietam
Contando com uma população maior e uma tecnologia bélica bem mais potente, os nortistas tinham melhores condições de vencer a batalha. Enquanto os conflitos se desenvolviam, o então presidente Abraham Lincoln toma providências para garantir a manutenção do território por meio de medidas que desestabilizavam a economia sulista. Em 1862, decretou o Homestead Act, que concedia o acesso das terras a oeste com base em um modelo de pequena e média propriedade. No mesmo ano, decretou a abolição da escravidão no país.

Com o apoio do governo central e a superioridade militar nortista, os confederados assinaram o termo de rendição em nove de abril de 1865. O modelo econômico do norte prevaleceu frente os interesses dos grandes proprietários do sul. Mesmo trazendo a predominância de uma economia sustentada pelo incentivo à indústria e o comércio, a sociedade estadunidense sofreria com novos problemas. A inserção do negro na sociedade e a criação de movimentos racistas foram polêmicas que se arrastaram na história desse povo até a atualidade.
Texto do Prof: Rainer Sousa da Equipe Brasil Escola

Cultura Egípcia

A Cultura Egípcia

A cultura egípcia foi profundamente influenciada pela religião; principalmente a arte e arquitetura. Contudo, os egípcios, buscando soluções para problemas práticos, nos deixaram também um vasto legado científico.

Artes
 Os egípcios de destacaram na arquitetura, pois sua crença na vida após a morte fez com que construíssem templos e pirâmides que deveriam durar eternamente.

Esfinge
As construções religiosas eram decoradas com estátuas e pinturas, que representam cenas do cotidiano. Quando os seres humanos eram retratados, apareciam sempre com o rosto, as pernas e pés de perfil e o tronco de frente, por determinação dos sacerdotes.
As pinturas e as esculturas eram, geralmente acompanhadas de inscrições hieroglíficas que explicavam as cenas ou figuras ali representadas.
 Os sacórfagos (túmulo em que os antigos colocavam os cadávares que não eram cremados) eram feitos de madeira ou pedra e possuíam a feição dos mortos, para facilitar o trabalho de reconhecimento da alma em seu possível retorno após a morte.

Ciências
 
De caráter eminentemente prático, as descobertas científicas dos egípcios direcionavam-se para a Matemática e Geometria. Desenvolveram técnicas usadas para demarcar as propriedades, além de medir áreas de triângulos, retângulos, hexágonos e o volume de cilindros e pirâmides.
A organização de um calendário foi necessária para determinar o início da cheia e das vazantes do rio Nilo. Pelo calendário egípcio, o ano era dividido em 365 dias e havia três estações: cheia, inverno e verão.
Na medicina, os egípcios conheciam várias doenças, praticavam operações, sabiam a importância do coração para a vida animal e conheciam a circulação sanguínea.
A escrita hieroglífica era sagrada, representada por pequenas figuras que formavam um texto. Os desenhos evoluíram para a escrita hierática, mais simples, culminando na escrita demótica, mais popular e usada pelos escribas.

 Religião
                                                                                                    Amon-Rá
A religião egípcia baseava-se no politeísmo, com deuses em forma de animais (zoomorfismo) ou um misto de homem e animal (antropozoomorfismo). Geralmente, os animais de uma determinada região eram seus protetores: falcões, hipopótamos, crocodilos, leões, chacais protegiam, desde o período pré-dinástico, os diversos nomos. Rá era considerado o criador do universo. Amon era o protetor dos tebanos. Quando a capital do império passou a ser Tebas, os dois deuses tornaram-se um só, Amon-Rá.
Havia também Ísis, Anúbis, Thot e Osíris, entre outros. Acreditava-se que, após  a morte, a alma comparecia ao tribunal de Osíris para julgamento de seus atos em vida. Inocentada, a alma poderia voltar a ocupar seu corpo se o mesmo tivesse condições de recebê-la, daí a preocupação com a mumificação dos cadáveres.  
Junto ao morto eram colocadas oferendas em forma de alimentos, jóias e armas para utilização no além. Também eram depositados textos com as qualidades do morto, destinados à análise de Osíris, advogando sua absolvição. Esses textos seriam incorporados ao Livro dos Mortos.
Por volta do século XIV a.C., o faraó Amenófis IV decidiu fazer uma reforma radical na religião, implantando a monolatria, ou seja, o culto oficial a um só deus, Aton. Suprimiu o culto aos diversos deuses e se autodenominou Akhenaton (filho do Sol). Alguns historiadores grafam seu nome como Ikhmaton (Aton está satisfeito).
Após sua morte, seu sucessor Tutancâmon restabeleceu o politeísmo e o prestígio dos sacerdotes.
A reforma de Amenófis não agradou ao povo, porém conseguiu uma centralização temporária do poder religioso.

O Massacre de Sabra e Chatila

O massacre de Sabra e Chatila

Estaria essa mãe sofrendo menos que as que perderam filhos nos atentados de 11 de setembro de 2001?
O Massacre de Sabra e Chatila, foi o genocídio de refugiados civis palestinos e libaneses perpetrado entre 16 e 18 de setembro 1982 de 1982, pela milícia maronita (seita cristã) liderada por Elie Hobeika, como retaliação pelo assassinato do presidente eleito do país e líder falangista, Bachir Gemayel. O evento ocorreu nos campos palestinos de Sabra e Shatila, situados na periferia sul de Beirute, área que se encontrava então sob ocupação das forças armadas de Israel.
A pedido dos falangistas libaneses, as forças israelenses cercaram Sabra e Shatila, bloquearam as saídas dos campos para impedir a saída dos moradores."A carnificina começou imediatamente. Continuaria até o meio-dia de sábado. A noite não trouxe nenhum descanso; o oficial de ligação falangista pediu iluminação, e os israelenses, diligentemente, atenderam o pedido, disparando foguetes de iluminação", enquanto grupos de milicianos, com cerca de 150 homens cada um, iam chegando aos campos para prosseguir a execução do massacre.
A possibilidade dos ataques era previsível. Bashir Gemayel, líder da organização de extrema-direita Falanges Libanesas, considerava os refugiados palestinos como "população excedente". Bashir foi assassinado em 14 de setembro de 1982. No dia 16, os campos foram atacados.
O massacre ocorreu em uma área diretamente controlada pelo exército israelense, durante a Invasão do Líbano de 1982, entre 16 e 18 de setembro do mesmo ano. O número de vítimas não é bem conhecido e, conforme a fonte, a estimativa pode variar de algumas centenas a 3.500 pessoas - na grande maioria crianças, mulheres e idosos - foram mortos pelos falangistas.
A Corte Suprema de Israel considerou o Ministro da Defesa do país, Ariel Sharon, pessoalmente responsável pelo massacre, por ter falhado na proteção aos refugiados.
Sharon (foto), quando candidato a primeiro-ministro de Israel, lamentou as mortes e negou qualquer responsabilidade. A repercussão do massacre, entretanto, fez com que fosse demitido do cargo de Ministro da Defesa.
Condenação das Nações Unidas
Em 16 de dezembro de 1982, a Assembleia-Geral das Nações Unidas condenou o massacre declarando-o um ato de genocídio. A secção D da resolução, que "definiu o massacre como um ato de genocídio", foi adotada por 123 votos a favor, 0 contra e 22 abstenções.
Repercussão
O genocídio de Shabra e Chatila foi um dos eventos que chamaram a atenção da opinião pública para o problema dos refugiados palestinos e dos territórios palestinos ocupados por Israel.
No Brasil
Na época, a revista Veja tinha como seu correspondente no Líbano o repórter Alessandro Porro, judeu nascido na Itália e naturalizado brasileiro, que desmontou a alegação de que o exército de Israel não percebera a ocorrência do massacre. Porro chegou mesmo a contar os 183 passos que separavam os campos de refugiados e o quartel israelense, o que foi considerado um furo jornalístico. "Segundo o testemunho de um major do Exército libanês, confirmado pelo guardião da antiga Embaixada do Kuwait, uma unidade israelense com três tanques Merkava e pelo menos cinco blindados estava aquartelada a menos de 200 metros daquelas primeiras casas do setor sul de Chatila."

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Inquisição e Reforma Protestante

INQUISIÇÃO CATÓLICA

Um tribunal de inquisição

A ascensão religiosa e ideológica da Igreja durante a Idade Média marcou distintamente a Europa entre os séculos V e XV. Contando com igrejas, mosteiros e catedrais espalhadas por todo esse território, e apoiado por diversas autoridades políticas da época, o catolicismo parecia ter total hegemonia nesse período. Apesar disso, não podemos pensar que a Idade Média foi o período onde se experimentou silenciosamente um tipo de subserviência absoluta.

Nesse tempo, principalmente na Baixa Idade Média, os hereges faziam frente à rígida orientação doutrinária do clero católico. Influenciados por antigas religiões pagãs ou dando interpretação diversa ao ideário cristão, muitos aspiravam a um tipo diferente de vivência religiosa. Com isso, a partir do século XIII, as primeiras investigações foram autorizadas pela Igreja contra aqueles que representassem uma ameaça ao “Corpo de Cristo”.

Logo em seguida, a chamada “Milícia de Jesus Cristo” foi o primeiro grupo destacado de clérigos responsáveis por perseguir os “desobedientes”. Contando, com o auxílio de autoridades locais, esses “fiscais da fé” já utilizavam das torturas e da fogueira como formas de vetar o avanço de outras religiosidades. Um de seus mais notórios integrantes foi Nicolau Aymerich, autor de um manual de Inquisição que orientou eficientes métodos de investigação e punição aos hereges.

Durante o século XV, o movimento inquisidor sofreu uma relativa decadência, vigorando anos mais tarde com a intensa participação dos reinos hispânicos. O reavivamento da inquisição deu-se graças ao interesse dos reis católicos espanhóis em tomar posse das riquezas acumuladas pelos judeus que, tradicionalmente, ocupavam-se das atividades comerciais.

Essa motivação econômica desdobrou-se justamente quando tal nação ocupava-se da expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica e das primeiras fases do projeto de expansão marítimo-comercial. Dessa forma, a motivação religiosa, que ao longo dos séculos demonizou os judeus, aliou-se a interesses econômicos do estado nacional em formação. Em conseqüência disso, notamos que na Inquisição Moderna vários investigadores eram nomeados pelo próprio Estado.

Em Portugal, onde a presença de judeus no comércio era muito acentuada, o rei Manuel I preferiu estabelecer a conversão forçada dos judeus, em 1497. Essa medida, ao invés de pacificar o processo, somente acirrou os ânimos entre os cristãos e os cristão-novos (ex-judeus). Os católicos de nascença viam com desconfiança a conversão religiosa dos judeus. Com isso, vários episódios de violência ocorreram no início do século XVI.

Não sustentando mais essa situação conflituosa, o rei Dom João III preferiu a autorização para instalar os domínios do Tribunal do Santo Oficio em Portugal. Dessa maneira, os países ibéricos tornaram-se um dos principais focos de atividades da Inquisição. Por serem nações que contavam com um amplo número de domínios coloniais na América, o Tribunal também foi instalado no continente a fim de regulamentar a religiosidade nas colônias.

Mesmo contando com uma série de valores distantes dos atuais, essa prática marcou um dos mais sangrentos episódios de intolerância religiosa de toda a História. Os julgamentos e sentenças anunciadas pela Igreja foram responsáveis por mais de 50 mil mortes ao redor do mundo. A grande maioria das vítimas eram mulheres, que eram usualmente condenadas pela prática de bruxaria.

Ao buscar a hegemonia da fé, o catolicismo daquela época utilizou de meios que hoje causam vergonha, até mesmo, aos próprios católicos. A punição física e as mortes daquela época eram desvinculadas do individualismo e do humanismo, valores primados por muitas das sociedades ocidentais contemporâneas.

O castigo era considerado um instrumento de revelação pelo qual o réu teria dimensão de seus pecados ou garantiria sua salvação espiritual. Dessa maneira, devemos ter cuidado ao resumir os atos da Inquisição como um tipo de violência dotado de valores correspondentes aos conceitos de perversidade ou desumanidade comumente reconhecidos pelo mundo atual.

Com isso, devemos ver a Inquisição como um tipo de experiência histórica lamentável por suas conseqüências. A própria ação da Igreja em reconhecer, no ano de 2000, a natureza desastrosa de seus atos, nos mostra como devemos relativizar nosso olhar mediante um mundo de valores e idéias que, por mais horripilantes, está visivelmente distante do nosso presente.


O AUTO DE FÉ

Os autos-de-fé consistiam em cerimónias mais ou menos públicas onde eram lidas e executadas as sentenças do Tribunal do Santo Ofício (instituição criada pela Inquisição no século XVI). Inicialmente havia dois tipos de autos-de-fé:

Os autos-de-fé que se realizavam no interior do Palácio da Inquisição ou num Convento, destinados exclusivamente aos "reconciliados" (aqueles que eram readmitidos no seio da Igreja e condenados a penas que iam desde penitências espirituais até à prisão e ao desterro;

Os autos-de-fé que se realizavam na praça pública onde eram condenados não apenas os "reconciliados" mas também os "relaxados" (aqueles que eram entregues à Justiça secular para execução da pena de morte.

Com o passar do tempo, os autos-de-fé passaram a constituir um grandioso espectáculo, realizado com grande pompa e segundo um cerimonial rigorosamente estabelecido. Assistiam a estas cerimónias não apenas as autoridades religiosas e civis (muitas vezes o próprio rei estava presente), mas toda a população da cidade que gritava em júbilo enquanto os condenados eram queimados vivos.

HERESIAS

A maior parte dos movimentos heréticos que se sucederam ao longo da história, tiveram raízes num clima generalizado de insatisfação social e espiritual.

No cristianismo e, por extensão, em diversas  outras religiões, considera-se heresia a postulação de idéias contrárias à doutrina adotada e difundida pelas autoridades eclesiásticas.

Do ponto de vista católico: A Igreja Católica considera hereges os indivíduos batizados que negam de modo pertinaz verdades que a igreja ensina como reveladas por Deus. Define ainda como cismático o cristão que recusa a submissão à hierarquia eclesiástica e, direta ou indiretamente, ao papa. Qualifica, enfim, como apóstata aquele que renega totalmente sua fé.

Na prática, a figura do cismático e a do herege apresentam grandes afinidades, visto que a negação da autoridade papal já constitui, em si, uma afirmação herética. Ambos diferenciam-se do apóstata pelo fato de continuar considerando-se cristãos. Freqüentemente relativizam os termos do desentendimento, já que por sua vez acusam de hereges os defensores da doutrina oficial.

Ao se aplicar o conceito de heresia a situações ocorridas no antigo regime da cristandade -- sociedade constituída pelo cristianismo --, não é fácil determinar até que ponto as diferenças eram de atitudes religiosas ou de posições sociopolíticas mascaradas por assuntos religiosos. A partir de uma perspectiva histórica, só se podem considerar como heréticos, a rigor, os movimentos que não chegaram a consolidar um sistema teológico e uma autoridade eclesiástica próprios. Assim, embora tanto a Igreja Ortodoxa como a Católica e as diversas comunidades protestantes se tenham qualificado umas às outras de heréticas durante séculos, na atualidade o movimento ecumênico evita acentuar as diferenças e, por conseguinte, prescinde do uso da palavra heresia.

Primeiras manifestações heréticas. Por volta do século II da era cristã, os primeiros padres da igreja, como santo Irineu e Tertuliano, condenaram determinados movimentos dentro do cristianismo que, em sua opinião, atentavam contra a autenticidade dos ensinamentos de Jesus. Entre as tendências heréticas mais difundidas, achavam-se o gnosticismo e o maniqueísmo.

Ainda que a especulação filosófica gnóstica fosse anterior ao cristianismo, encontrou terreno propício nas primeiras reflexões da nova religião. Suas idéias fundamentais eram a salvação mediante o conhecimento e a afirmação de um dualismo antagônico entre matéria e espírito, em virtude do qual entre Deus e o mundo -- criado por uma divindade maligna -- existiam emanações intermédias. O desprezo pela matéria levou a dois extremos opostos na moral: o ascetismo absoluto e a libertinagem, esta última justificada porque nada de material tinha importância. O dualismo gnóstico encontrou singular expressão na doutrina dos marcionitas, que opunham o Deus do Antigo Testamento ao do Novo Testamento.

O maniqueísmo pode ser considerado uma forma particular do gnosticismo, que recolhia elementos do cristianismo e do zoroastrismo persa. Seu fundador, o persa Maniqueu, que viveu no século III, distinguia duas substâncias originárias opostas: luz e trevas. Santo Agostinho, em sua juventude, sentiu-se fortemente atraído por essa doutrina.

Rigorismo anti-romano. Durante os séculos IV e V, que presenciaram a decadência do Império Romano do Ocidente, surgiram diversas seitas que defendiam um acentuado rigorismo moral e constituíam com freqüência movimentos regionais contrários às imposições sociopolíticas da capital do império.

O donatismo, de origem norte-africana, trouxe consigo uma reação contra a minoria dirigente romanizada. Seu rigorismo negava a admissão na igreja daqueles que haviam apostatado durante as perseguições. Na Espanha, surgiu o priscilianismo, em torno da figura de Prisciliano, bispo de Ávila, executado no ano 385 que, segundo parece, admitiu práticas religiosas ancestrais de origem celta e criticou o clero romanizante.

O pelagianismo, enfim, inspirou-se nas idéias do monge Pelágio, oriundo das ilhas britânicas. Pelágio rejeitava a idéia de pecado original, defendia o poder absoluto da vontade humana e reduzia a importância atribuída à graça de Deus na salvação. Sua doutrina foi condenada pelo Concílio de Cartago, em 418.

Disputas cristológicas entre Oriente e Ocidente.  O reconhecimento do cristianismo com o Edito de Milão e sua posterior conversão em religião oficial do Império Romano fizeram da igreja um centro de lutas políticas, especialmente entre Oriente e Ocidente. A  primeira ocasião de controvérsia surgiu com a doutrina de Ário, sacerdote que, de sua comunidade em Alexandria, negava a natureza divina de Jesus Cristo. O imperador Constantino convocou o primeiro concílio ecumênico em Nicéia, no ano 325, e sugeriu a expressão "o Filho é consubstancial ao Pai".  Sufocado militarmente, o arianismo difundiu-se entre os povos germânicos mas, na Espanha visigoda, chegou a perdurar como doutrina oficial até o ano 589.

Durante o século V, de fato, o problema de como conciliar a natureza divina com a humana na pessoa de Cristo dividiu as duas grandes escolas teológicas. A de Antioquia, mais racionalista e realista, insistiu no aspecto humano; a de Alexandria, propensa à especulação mística, no lado divino. A disputa entre Antioquia e Alexandria sofreu a interferência das flutuações do patriarcado de Constantinopla e do imperador, que temia a fragmentação do império.

Na linha da escola de Antioquia, Nestório defendeu com tal ênfase a tese das duas naturezas de Cristo que o apresentou como duas pessoas, de onde se deduz que Maria não era mãe de Deus (theotokos). Essa doutrina foi condenada pelo Concílio de Éfeso (431). Entre os séculos V e VIII a escola de Alexandria, que impusera suas teses em Éfeso, acentuou sua posição até o ponto de defender que em Cristo só havia uma natureza, a divina (monofisistas), ou uma vontade (monoteletas). Essas doutrinas foram condenadas nos concílios de Calcedônia (451) e Latrão (649).

Movimentos religiosos populares da Idade Média. Durante a alta Idade Média, ocorreu uma série de movimentos populares que defendiam a volta à pureza e pobreza evangélicas e pretendiam a reforma do clero. Assim, no século XI surgiram em Milão os patarinos, que logo passaram das propostas de reforma à oposição ao clero, a seus ritos e aos sacramentos.

A ênfase na vinda de um messias libertador que estabeleceria o reino de justiça e paz -- que, segundo os milenaristas, duraria mil anos -- reapareceu na situação de crise social dos séculos XII e XIII. O abade Joaquim de Fiore, morto em 1202, elaborou uma teologia da história segundo a qual, depois da idade do Pai (Antigo Testamento) e da idade do Filho (a igreja), viria a do Espírito, que suprimiria a hierarquia eclesiástica.

Os valdenses, seguidores do francês Pedro Valdo e conhecidos como os "pobres de Lyon" ou "pobres de Cristo", foram censurados por dedicarem-se à pregação, uma vez que eram leigos e iletrados, e condenados por questionarem a autoridade eclesiástica, o purgatório e as indulgências.  Tiveram seguidores nos "pobres da Lombardia".

A heresia de maior importância histórica da época foi a dos cátaros ou albigenses -- nome que receberam no sul da França, já que tinham seu centro na cidade de Albi. Professavam um dualismo de origem gnóstica e maniqueísta e defendiam a castidade, o jejum e o vegetarianismo. Organizaram-se em dois grupos: os fiéis e os perfeitos. Estes últimos administravam o rito do consolamentum, que incluía a imposição de mãos. A igreja tentou fazer-lhes oposição, primeiro por meio do diálogo e logo mediante a "cruzada albigense", que assolou o sul da França durante a primeira metade do século XIII, e a criação da Inquisição. As ordens mendicantes, dos dominicanos e franciscanos também se originaram do desejo de devolver os hereges ao bom caminho e dar-lhes exemplo de pobreza e humildade.

Precursores da Reforma. O cisma do Ocidente, que no fim do século XIV e princípio do século XV dividiu a igreja, deixou-a mergulhada num estado de grande desorganização. Apareceram, assim, certas doutrinas religiosas, como as que propugnaram o britânico John Wycliffe e o boêmio Jan Hus, que anteciparam muitas das teses da reforma luterana. Wycliffe partia da idéia do domínio de Deus, segundo a qual todo o poder e todo o mérito vem do Senhor. Ele predestina os homens ao bem (igreja invisível) ou ao mal, portanto a igreja visível perde importância. Wycliffe não aceitava a presença real de Cristo na eucaristia e proclamava o fortalecimento do poder do rei como vigário de Deus para administrar a justiça. Foi condenado pelo Concílio de Constança, de 1414 a 1418.
O hussismo constituiu tanto uma doutrina religiosa como uma insurreição política. Hus declarou-se a favor da reforma da igreja segundo Wycliffe e, ao mesmo tempo, reivindicou uma Boêmia livre. Foi condenado, também, pelo Concílio de Constança.

Séculos XVI e XVII. Depois da Reforma protestante, a Igreja Católica permaneceu fiel ao conceito de heresia e condenou como tais diversos movimentos surgidos em seu seio. Entre estes, cabe destacar o iluminismo e o quietismo, aparecidos nos séculos XVI e XVII. Ambas as tendências propugnaram ensinamentos do tipo gnóstico, que situavam os iluminados acima de toda a formalidade externa da igreja, e conseguiram adeptos na Espanha, França e Itália.

Desde meados do século XVII, primeiro nos Países Baixos e depois na França, disseminou-se o jansenismo, inspirado nas idéias do teólogo Cornelius Otto Jansen, de Louvain, que insistia na dupla predestinação, para o bem e o mal, e na absoluta incapacidade humana de decidir seu destino.  Aconselhava o ascetismo e desaconselhava a eucaristia. No mesmo clima espiritual surgiu o galicanismo, impulsionado pelo absolutismo do monarca francês Luís XIV, que tentou governar a igreja de seu país sem contar com Roma, amparando-se na doutrina da supremacia do concílio sobre o papa (conciliarismo). Ambas as concepções perderam força em meados do século XVIII. Com a transformação posterior das estruturas sociais, os movimentos heréticos cederam lugar às agitações revolucionárias.

Heresia no pensamento contemporâneo. As mais recentes formulações sobre o conceito de heresia se devem a Frithjof Schuon, uma das maiores autoridades mundiais em religião comparada. Partindo de uma descrição dos pressupostos metafísicos comuns a todas as religiões, Schuon procura dar um conteúdo objetivo ao conceito de heresia, distinguindo entre heresias "extrínsecas" e "intrínsecas". As primeiras são variações de doutrina e método que, por motivos de oportunidade histórica, vêm a ser condenadas por uma autoridade religiosa dominante, mas que, numa outra época, podem vir a ser aceitas, se não como ortodoxas, ao menos como espiritualmente legítimas.

Heresia "intrínseca", ao contrário, é a doutrina religiosa que atenta contra o próprio núcleo da metafísica universal e que, por isso, não encontra abrigo no seio de nenhuma das grandes religiões universais. O protestantismo é um exemplo de heresia "extrínseca" (em relação ao catolicismo). O maniqueísmo, ao contrário, por seu dualismo irredutível, não pode conciliar-se com nenhuma das grandes religiões.


A REFORMA PROTESTANTE
Introdução
O movimento de reforma religiosa deve ser compreendido dentro de um quadro maior de transformações, que caracterizam a transição feudo capitalista. Durante a Baixa Idade Média, a Europa passou por um conjunto de transformações sociais econômicas e políticas, que permitiram a uma nova sociedade, questionar o comportamento do clero e a doutrina da Igreja.

Fatores da Reforma:

1)         A crise interna à Igreja era caracterizada pelo comportamento imoral de parte do clero, situação que se desenvolvera por séculos, desde a Idade Média. A simonia era uma prática comum, secular, caracterizada pela venda de objetos considerados sagrados ou a venda de cargos religiosos. Os grandes senhores feudais compravam cargos eclesiásticos como forma de aumentar seu poder ou garantir uma fonte de renda para seus filhos, originando um processo conhecido como "investidura leiga", principalmente no Sacro Império. A preocupação com as questões materiais -- poder e riqueza- levou principalmente o alto clero a um maior distanciamento das preocupações religiosas ou mesmo de caráter moral. O nicolaísmo retrata um outro aspecto do desregramento moral do clero, a partir do qual o casamento de membros do clero levava-os a uma preocupação maior com os bens materiais, que seriam deixados em herança para os filhos e a partir daí determinavam o comportamento "mundano" dessa parcela do clero.

2)         A ascensão da burguesia, possuidora de uma nova mentalidade, vinculada a idéia de lucro e que encontrava na Igreja Católica um obstáculo. A Igreja desde a Idade Média procurava regular as atividades econômicas a partir de seus dogmas e nesse sentido condenava o lucro e a usura (empréstimo de dinheiro à juros) inibindo a atividade mercantil, burguesa. Vale lembrar que a burguesia européia nasce cristã e dessa forma passará a procurar uma forma de conciliar suas atividades econômicas e o ideal de lucro com sua fé.

3)         A ascensão do poder real; no século XVI formava-se ou consolidava-se o absolutismo em diversos países europeus e o controle da Igreja ou da religião passou a interessar aos reis como forma de ampliar ou legitimar seu poder, explicando a intolerância religiosa que marcará a Europa nos séculos seguintes. O melhor exemplo desse vínculo entre a nova forma de poder e a religião surgirá na Inglaterra com a criação de uma Igreja Nacional, subordinada a autoridade do Rei.

4)         A mentalidade renascentista refletiu o desenvolvimento de uma nova mentalidade, caracterizada pelo individualismo e pelo racionalismo e ao mesmo tempo permitiu o desenvolvimento do senso crítico, impensável até então, determinando um conjunto de críticas ao comportamento do clero.

Antecedentes:

A Reforma do século XVI foi precedida por várias manifestações contrárias ao monopólio da Igreja sobre a religiosidade e contra o comportamento imoral do clero: as heresias medievais, a Querela das Investiduras, o Cisma do Oriente e os movimentos reformadores.
Os principais precursores da Reforma foram John Wycliffe e Jan Huss.
Wycliffe nasceu, viveu e estudou na Inglaterra no século XIV onde desenvolveu uma "teoria da comunidade invisível dos eleitos" e defendeu também a devolução dos bens eclesiásticos ao poder temporal, encarnado pelo soberano. Em 1381 defendeu em público a insurreição camponesa.
Jan Huss nasceu em 1373 na Boêmia onde estudou, ordenou-se e adquiriu grande popularidade com seus sermões, marcados pela influência de Wycliffe, carregados de críticas aos abusos eclesiásticos. Suas críticas foram radicalizadas na obra De ecclesia (Sobre a Igreja). Condenado pelo Concílio de Constança, foi queimado em 1415.


Lutero e Calvino

Nasceu em 1483 na cidade de Eisleben. Iniciou os estudos de direito em 1505 e os abandonou no mesmo ano, trocando-o pela vida religiosa, sem o apoio do pai. Tornou-se monge e depois padre. Apesar de dedicado à Igreja, sempre esteve atormentado por duas grandes dúvidas: o poder da salvação atribuído a lugares santos e posteriormente a venda de indulgências.
No inverno de 1510 -- 11 foi a Roma em missão de sua ordem e visitou lugares sacros; em um deles, para que uma alma se libertasse do purgatório, teve que recitar um pai nosso em latim a cada degrau da escada sagrada. Professor na Universidade de Wittenberg, fundada por Frederico da Saxônia, aprofundou seus estudos bíblicos e passou a acreditar que a Salvação não dependia do que as pessoas fizessem , mas daquilo em que acreditassem. Já não considerava Deus como um contador com quem devia barganhar, ou um juiz severo a ser aplacado com boas ações. Cristo viera para salvar os pecadores, a salvação não seria alcançada com esforços insignificantes mas com a fé no próprio Deus. Assim muitos dos princípios da Igreja pareceram irrelevantes e blasfemos à Lutero. Especialmente suspeitos eram: a noção de que Deus recompensa um cristão na proporção das orações, peregrinações ou contribuições; o culto dos santos e de suas relíquias e a venda de Indulgências.
A venda de indulgências pode ser considerada como a gota dâ??água para o movimento reformador. No interior do Sacro Império, o pregador Johann Tetzel era o responsável pela venda do perdão; para ele não era preciso o arrependimento do comprador das indulgências para que elas fossem eficazes. Oficialmente Tetzel estava levantando fundos para a reconstrução da Basílica de São Pedro, em Roma, mas ao mesmo tempo estava a serviço do arcebispo de Mainz, endividado junto ao banco de Fugger.
Esse foi o momento em que Lutero percebe que as críticas internas à Igreja não surtiriam efeito, aliás, críticas que eram feitas antes de 1517, quando publicou as "95 teses", tornando suas críticas publicas e tornando-se uma ameaça à Igreja de Roma
Para Lutero a salvação era uma questão de FÉ e portanto dependia de cada fiel; a Igreja não era necessária, mas útil à salvação, sendo que as Escrituras Sagradas eram a única fonte de fé. Lutero preservou apenas dois sacramentos: o batismo e a comunhão, acreditando que na eucaristia havia a presença real de cristo, porém sem transubstanciação. O culto foi simplificado, com a instrução e comunhão, substituindo o latim pelo alemão.


Lutero e seu tempo
Início do século XVI. O Sacro Império abrange principalmente os Estados Germânicos, divididos em grandes Principados. Em seu interior predomina o trabalho servil na terra ao mesmo tempo em que algumas cidades vivem de um comércio próspero.
Apesar do termo "Império", a situação esta longe da existência de um poder absolutista, ao contrário do que ocorre em Portugal e na Espanha.
Em 1519, assumiu o trono Carlos V, que era rei dos Países Baixos desde 1515 e rei da Espanha desde 1516. Pretendendo unificar seus vastos domínios e a instaurar uma monarquia universal católica, o Imperador foi obrigado a enfrentar os príncipes germânicos, contrários a centralização do poder.
As disputas políticas envolvendo a tendência centralizadora do imperador e os interesses dos príncipes foi uma constante desde a formação do Sacro Império, em . Esta situação de disputa política foi aproveitada por Lutero, que atraiu os Príncipes para suas idéias reformistas, na medida em que o imperador era católico, e por sua vez pretendia utilizar o apoio da Igreja Católica para reforçar sua autoridade. Parcela significativa da burguesia também apoiou as teorias de Lutero, que reforçava o individualismo.

Reforma Protestante - Calvinismo

Ocorrido como um desdobramento da Reforma Luterana, o movimento Calvinista foi uma das principais religiões surgidas durante a Reforma Protestante. A Suíça, criada após sua separação do Império Romano-Germânico, em 1499, teve contato com as idéias de Martinho Lutero através da pregação feita pelo padre Ulrich Zwinglio.

Ao propagandear as doutrinas luteranas pela Suíça, Zwinglio desencadeou uma série de revoltas civis que questionavam as bases do poder vigente. A prática do zwinglianismo preparou terreno para a doutrina que seria mais tarde criada pelo francês João Calvino. Perseguido em sua terra natal, João Calvino refugiou-se na Suíça com o intuito de disseminar outra compreensão sobre as questões de fé levantadas por Martinho Lutero.

Segundo Calvino, o princípio da predestinação absoluta seria o responsável por explicar o destino dos homens na Terra. Tal princípio defendia a idéia de que, segundo a vontade de Deus, alguns escolhidos teriam direito à salvação eterna. Os sinais do favor de Deus estariam ligados a condução de uma vida materialmente próspera, ocupada pelo trabalho e afastada das ostentações materiais.

De acordo com alguns estudiosos, como o sociólogo Max Weber, o elogio feito ao trabalho e à economia fizeram com que grande parte da burguesia européia simpatizasse com a doutrina calvinista. Contando com esses princípios, observamos que a doutrina calvinista se expandiu mais rapidamente que o Luteranismo.

Em outras regiões da Europa o calvinismo ganhou diferentes nomes. Na Escócia, os calvinistas ficaram conhecidos como presbiterianos; na França como huguenotes; e na Inglaterra foram chamados de puritanos.

Reforma Protestante - Anglicanismo

Henrique VIII, primeiro líder supremo da Igreja Anglicana.

Na Inglaterra percebemos um movimento reformista bastante peculiar. Desde meados do século XIV, o teólogo John Wyclif realizou duras críticas ao poder material da Igreja e fez a tradução da Bíblia para o inglês. Além dele, Thomas Morus também teceu críticas ao papel desempenhado pela Igreja Católica durante o século XVI.

No reinado de Henrique VIII, o Estado tinha controle sobre os cargos religiosos, nomeando padres, bispos e cardeais. Nesse período, as relações entre Henrique VIII e a Igreja chegava ao seu fim quando o papa se negou a anular seu casamento com Catarina de Aragão. Dos cinco filhos que teve com Catarina, apenas uma menina havia sobrevivido.

Preocupado com a linha sucessória de sua dinastia, Henrique VIII desejou casar-se com Ana Bolena, buscando o nascimento de um herdeiro homem. Tendo negada a anulação de seu casamento, Henrique VIII resolveu criar uma nova instituição religiosa e anular os poderes da Igreja Católica na Inglaterra. Em 1534, o parlamento inglês aprovou o Ato de Supremacia que anunciou a criação da Igreja Anglicana.

O anglicanismo preservara os moldes hierárquicos e a adoração aos santos católicos. No que se refere às suas doutrinas, o anglicanismo incorporou alguns princípios calvinistas. Além disso, o poder exercido pela Igreja Anglicana concedeu condições para que o Estado se apropriasse das terras em posse dos clérigos católicos.

A partir dessas novas medidas estabelecidas pelo anglicanismo, o poder de influência da Igreja Católica sobre as questões do governo britânico sofreu uma grande limitação. Por outro lado, as características desta nova igreja cristã incentivaram a ampliação das atividades burguesas na Inglaterra.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Guerra Civil Espanhola e Franquismo

                                                    GUERNICA, ONTEM E HOJE               
                 Após a crise de 1929, a Espanha passou a viver um agitado cenário político marcado pela atuação de setores de esquerda e direita. No ano de 1931, um governo republicano foi instalado com o objetivo de renovar as práticas políticas espanholas e prover uma solução aos problemas econômicos que assolavam o país. Nesse contexto, conservadores e socialistas se alternavam no poder demonstrando a ausência de um grupo político hegemônico.
              Os comunistas dominaram o governo espanhol até 1934, quando os setores de direita conseguiram chegar ao poder. Dois anos mais tarde, os liberais, republicanos, socialistas e comunistas formaram uma grande frente de coalizão chamada de Frente Popular. Buscando garantir a democracia e atender os anseios dos trabalhadores, esse grupo de esquerda conseguiu voltar ao poder na Espanha. Imediatamente, os conservadores de extrema direta uniram-se aos militares na instalação de uma ditadura.
              Em 1936, membros do exército espanhol como Gonzalo Queipo, Emilia Mola, José Sanjuro e Francisco Franco lideraram uma tentativa de golpe. Para dar sustentação à ação golpista, buscaram o apoio de um grupo de ultra-direita composto por conservadores chamado Falange. No entanto, a tentativa de tomada do poder foi impedida pela ação de milícias de trabalhadores que não aceitavam o surgimento de uma ditadura em território espanhol.
              Em contrapartida, o domínio dos militares sobre as forças armadas do país estabeleceu uma polarização política que deu início à chamada Guerra Civil Espanhola. Enquanto os militares tinham o apoio de monarquistas e fascistas na tentativa de instalação da Ditadura; os grupos republicanos contaram com a participação de socialistas, trabalhadores e tropas internacionais vindas de países como a União Soviética e a França.
              Observando a possibilidade de ascensão de mais um regime totalitário, chefes de outros regimes conservadores, como Adolf Hitler, Benito Mussolini e Antonio Salazar cederam tropas em favor dos militares golpistas. Além disso, governantes como Hitler e Mussolini aproveitaram do conflito para testar o potencial destrutivo do grande arsenal militar que haviam formado. Em 1937, por exemplo, as forças alemãs comandaram um bombardeio aéreo que destruiu a cidade espanhola de Guernica.
              No início de 1939, os militares conseguiram vencer a guerra civil e estabelecer um governo totalitário comandado por Francisco Franco. O seu regime teve longa duração, sendo destituído somente no ano de 1975. O chamado “franquismo” demonstrou o caráter autoritário e personalista do governo do general-ditador que dominou a Espanha por várias décadas.

Por Rainer Sousa

Graduado em História

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O atentado ao Charlie Hebdo.


A questão a seguir é colocada por Alexandra Baldeh Loras (foto acima), 37 anos, francesa de origem muçulmana e judaica, que vive no Brasil há dois anos como consulesa do país em São Paulo.
Como todos os cidadãos franceses, ela procura respostas para os atentados terroristas em Paris em meio ao luto. Formada em ciências políticas e estudiosa do fenômeno da integração, ela assina um blog sobre minorias.
Fez sua tese de mestrado na prestigiosa SciencePo (L'École Livre de Sciences Politiques, onde se forma a elite política) sobre os negros na televisão francesa, onde foi apresentadora por sete anos.
Alexandra afirma que "a França ainda precisa se assumir como nação multicultural e multirracial" para evitar que alguns de seus filhos de ascendência árabe e africana não sejam "adotados pelo terrorismo".
A seguir, trechos da entrevista concedida dois dias depois do ataque que matou 12 jornalistas do "Charlie Hebdo" e na tarde do sequestro que acabou na morte de quatro reféns.
UM NOME FAMILIAR
Quando vi nos telejornais que o sequestrador do supermercado kosher em Paris se chamava Coulibaly, fiquei rezando para que não fosse um dos meus primos. É um sobrenome comum na África. O terrorista que matou quatro reféns não era meu parente, mas é como se fosse. É negro e francês como eu. O que aconteceu na vida dele para que se tornasse tão violento?
As mortes na redação do "Charlie Hebdo" e no supermercado são atos detestáveis do terrorismo. Antes de falar de liberdades, o respeito pela vida humana me leva a condenar os ataques categoricamente como um ato bárbaro inaceitável. Estou de luto pelas famílias das vítimas.
Ouvi e li nas redes sociais muitas reações violentas: "esses animais, selvagens, negro sujo, árabes imundos...". A lista de insultos é longa, mas gostaria de convidar a todos a se perguntarem o que levou esses franceses a cometer tais crimes hediondos. Os terroristas passaram alguns meses no Iêmen sendo treinados e várias décadas na França. Então, a base da identidade deles é francesa.
Apesar do nosso lema "liberdade, igualdade e fraternidade", fomos de geração em geração condicionados a pensar que o racismo e o sexismo são naturais. Uma hierarquia construída durante séculos declarou que os homens são superiores às mulheres, que só tiveram direito de voto em 1944, e que os brancos eram superiores a árabes e negros.
Foi uma dor imensa crescer na França como negra. Sou de origem muçulmana, já que meu pai é da Gâmbia, um país da África Ocidental. Nasci em Paris, de mãe francesa, branca e católica.
O que me machucava quando criança é que sempre me perguntavam de onde vinha. Até os meus 21 anos, eu não conhecia Gâmbia. Fui criada na França. Meu avô era comunista, foi secretário-geral do partido anarquista, mas era super racista.
O "Charlie Hebdo" é um jornal de esquerda, que sempre publicou charges que podem ser interpretadas como xenófobas, racistas e antissemitas. Defendem um Estado laico, o que não quer dizer ateísta. Ser laico, na verdade, é respeitar todas as religiões. Que liberdade de expressão estamos defendendo? Pode-se faltar com respeito a profetas reverenciados por uma comunidade que não tem poder nos meios de comunicação para se expressar?


JE SUIS CHARLIE
É muito fácil dizer 'Eu Sou Charlie'. Eu gostaria que todos fossem Charlie também quando jogaram o coquetel molotov na Redação anos atrás. Quando eles desenhavam Maomé de quatro. Quando Phillipe Val [ex-editor] foi vítima de violência da extrema direita. Quando o Charb [Stéphane Charbonnier, diretor da publicação morto no ataque] precisou de escolta policial por oito anos. Não é ser Charlie só hoje, quando houve a morte deles.
Eu me emociono ao ver a caminhada de quase 4 milhões de pessoas em Paris. É bom ver a França tão unida. Acho muito triste que tenham morrido personalidades conhecidas. Mas me entristece também a explosão de um carro bomba que matou 37 pessoas no Iêmen, em um atentado do mesmo grupo da Al-Qaeda, quatro dias antes do de Paris. Por que ninguém falou mais disso? As vidas do Charb e do Wolinski valem mais?
Após os ataques, tenho escutado: "Temos que matar esses terroristas". Vamos matar como eles mataram? É essa a solução? Sou contra a pena de morte. Gostaria de conhecer as reivindicações deles. Por que se tornaram loucos assim? Por que caíram no extremismo?
Para eles, talvez, nós é que sejamos terroristas. Quantas atrocidades foram cometidas nas ex-colônias? Pegaram argelinos, marroquinos, senegaleses para lutar pela França e defendê-la para ser um país livre. Aprendi na escola que eram voluntários. Hoje, documentários mostram que não tiveram escolha, as famílias eram ameaçadas. Há um lado da história da França muito obscuro, que ela não quer assumir.
A pátria mãe francesa parece ter esquecido os 400 anos de escravidão e 300 de colonização. A França ainda não se desculpou pela dores imensas que causou na África. Precisa se aceitar como sociedade multicultural e multirracial. E hoje ela não quer assumir esses filhos. Eu me coloco entre eles. Nos sentimos rejeitados. E me refiro aos africanos, aos árabes, aos asiáticos e aos judeus também. A todas as minorias.
PAI TERRORISMO
E quando um filho não tem pai, ele pode ter outro que o acolhe e lhe dá importância. O "pai terrorismo" pegou alguns desses filhos e deu a eles o senso de pertencimento a um grupo, lhes deu espaço, comida e dinheiro. Precisamos tentar resgatá-los.
Falam: "Ah, eles não se integraram". Eles têm que adivinhar como se integrar? A riqueza da cultura deles não tem que desaparecer. É a riqueza da França.
O prato preferido do francês hoje é o cuscuz. Entre os artistas mais amados estão Omar Sy —ator de origem senegalesa que ganhou o César [o Oscar francês], pelo filme "Os Intocáveis" (2011)— e Jamel Debbouze, ator e comediante de origem marroquina [de "Astérix e Obélix - Missão Cleópatra"].
É preciso ter coragem de pesquisar sobre esses jovens que vão para a Al-Qaeda. Saber o que vai pela cabeça deles para trilhar esse lado da escuridão. Do que eles precisam para se sentir parte do povo francês?
Sempre que abrem espaço para o debate sobre a França multirracial e multicultural convidam rappers e jogadores de futebol para falar, que nem sempre estão preparados para debater com o outro lado. Quase nunca convidam intelectuais. Só o Tariq Ramadan [professor da Universidade de Oxford, de origem Egípcia e autor de "Radical Reform, Islamic Ethics and Liberation"], que é muito inteligente, mas sempre pegam frases dele fora de contexto.
É como dar muito espaço para Michel Houellebecq [escritor francês que acaba de lançar "Submissão", livro sobre uma Franca governada por um partido muçulmano em 2022].
Eu não concordo com ele e outros pensadores, mas se falamos de liberdade de expressão temos que deixar todo mundo se exprimir. Não só os pensadores da extrema direita, que está crescendo.
É assim que criam um mundo muçulmano que eu não vejo ao meu redor. Entre todos os meus amigos e na minha família, ninguém é extremista. Eles não acham o lugar deles na sociedade francesa nem na África. Quando vão pra lá, tampouco são bem-vindos.
MONOCROMÁTICA
No poder e na televisão também, onde trabalhei como jornalista e apresentadora nos canais France 3 e TF1, sempre era a única negra. Aprendi muitas coisas tendo esse olhar de "infiltrada".
A França é ainda uma espécie de monarquia. Cortaram a cabeça do rei, mas ele ainda vive na elite oligárquica. Houve a revolução de 1789, mas todo o espectro atual de líderes empresariais e políticos é aristocrata. Eles não representam a diversidade da França de hoje.
É o mesmo em governos de direita ou de esquerda: são brancos e elitistas. São intelectuais que cresceram no "quinto arrondissement" [região administrativa de Paris], foram estudar no sexto e trabalhar no sétimo. São da "rive gauche" [margem esquerda do Sena]. Não conhecem o que acontece lá fora.
Na ENA [École Nationale D'Aministration, símbolo da meritocracia republicana francesa], onde os presidentes estudam, só tem brancos. Na SciencePo, todos os alunos afrodescendentes franceses acabam indo trabalhar nos Estados Unidos e na Inglaterra. Eu me formei lá.
Muitos falavam: "Ah, você é parte da cota?" Eles selecionam alguns alunos dos guetos que tiveram notas excelentes. Pensam que cheguei lá como parte desse programa. Respeito muito os cotistas, mas não percebem que me insultam ao concluir que uma negra não pode entrar lá por outro caminho.
INVISIBILIDADE
Fiz meu mestrado sobre a invisibilidade dos negros na televisão francesa. Quando vamos sair dos estereótipos? Tenho 50% de sangue branco, mas minha pele é negra. Tenho 50% de sangue africano e meu filho é louro. A pele de meu pai era de ébano. É um desafio ser mãe de um negro que é branco de pele.
Vejo no Brasil um racismo diferente. Quando vou ao clube com meu filho, me olham torto porque não estou usando branco como as babás.
Comecei a dar palestras nas escolas públicas daqui para trabalhar a autoestima das crianças de cor. Falo dos inventores e das grandes figuras negras. Aqui também os negros só são retratados dentro do estereótipo: no esporte, na música e no crime. Falo para os estudantes o que gostaria de ter ouvido na escola, mas que só descobri aos 30 anos no meu mestrado sobre o tema: a geladeira foi inventada por um negro, assim como a antena parabólica e o marca-passo.
A BABÁ
Os brancos têm que se olhar e ver os privilégios que têm. Precisam entender o que é ser negro ou árabe diariamente. E o que vem com isso, quando se está procurando um apartamento para alugar ou concorrendo a uma vaga de emprego.
O que é muito triste é que temos um marketing ótimo: a França defensora dos direitos humanos, a França da "igualdade, liberdade e fraternidade". Onde você vê igualdade e fraternidade? Quem tem liberdade de expressão? Só um lado.
Onde você vê os ciganos se expressarem? E eles estão lá há várias gerações. Você ouve falar dos sem-teto? Onde se fala dos jovens que não podem entrar numa discoteca por terem mais melanina?
O conhecimento é a melhor arma para combater a desigualdade e desconstruir os fundamentos do racismo e do extremismo. Quase nenhum escritor, filósofo, cientista negros e árabes ganha visibilidade na televisão e nos livros didáticos na França.

Ao investigar essa realidade, descobri que eles existem, sim, e que potencial e talento não têm nada a ver com a quantidade de melanina na pele. Precisamos reparar e aliviar a dor que nossa sociedade gera sem que nem percebamos. E tentar entender quanto é nossa responsabilidade ter criado esses monstros.
Artigo extraído da coluna Monica Bergamo, do jornal Folha de São Paulo.